Filme estranho da vez: Ex Drummer‏

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Uma banda de deficientes, vivendo numa sociedade podre e disfuncional e fazendo as coisas de forma louca e descontrolada. Essa é a estória de Ex Drummer, do diretor Koen Mortier, baseado na obra homônima do novelista flamengo Herman Brusselmans. O filme é confuso, sujo, indigesto, é o perfeito retrato de uma sociedade ignorante e quimicamente letal.

       Dries é um famoso escritor que vive de forma privilegiada em sua casa de alto padrão, sua mulher gosta de aventuras sexuais a três e ele se dedica integralmente a escrever seus livros. Certo dia três deficientes (eles fazem questão de enfatizar isso) batem a sua porta lhe oferecendo uma vaga de baterista em sua banda de, exclusivamente, deficientes. A idéia do convite aconteceu após lerem em uma entrevista que Dries sabia tocar bateria, pensaram então que seria uma boa idéia chamá-lo para banda, e assim aconteceu. A celebridade incrivelmente (ou nem tanto) aceita o convite e assim começa o filme.

A banda é formada pelo vocalista de língua presa Koen. Sujeito assustador, que pode ser descrito como um sádico maluco por sexo. Seu hobby é espancar e estuprar mulheres. Já o baixista gay Jan tem um problema no braço, que é rígido e ele não consegue dobrá-lo. Tal mazela surgiu no dia em que sua mãe o pegou se masturbando em seu quarto, evento que também causou a calvície da pobre coitada. O guitarrista Ivan tem uma surdez psicológica e aparentemente é o mais normal da turma, apenas usa muitas drogas e trata sua mulher e filha como lixo. Como podem perceber todos tem uma deficiência, e a de Dries é não saber tocar bateria de verdade.

O escritor, que é reconhecido por praticamente todos os personagens do filme – dos espertos até os mais ignorantes-, entra nessa epopéia obviamente para viver a experiência de um mundo incrivelmente insano e assim ter combustível para sua próxima obra. O mais interessante de tudo é que a banda acaba funcionando. Todos tocam bem, o som é redondo, e músicas como o cover do Devo “Mongoloid” são interpretados com muito “feeling” pelo quarteto.

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Em meio a uma enxurrada de problemas, a banda segue seu caminho com a alcunha de “The Feminist”. Dries batiza com esse nome a banda sobe a afirmação de que quatro deficientes valem a mesma coisa que quatro feministas. Todos adoram o nome. Eles ensaiam arduamente em meio a muitas drogas e brigas para um festival que será realizado na cidade, festival que acabam ganhando. Dries depois disso abandona a banda, não se importando nem um pouco em dizer adeus ou algo assim, ele manipulou aqueles loucos miseráveis e se mandou chutando a porta!

O diretor e roterista Koen Mortier é realmente muito inventivo na direção e traz muita qualidade técnica para o longa. Uso eficiente da câmera em movimento, longas e ótimas cenas sem cortes, edição excepcional. O grupo de atores encarna a loucura dos personagens como sendo deles e até esquecemos que aquilo não passa de uma cena, pois tudo parece descambar para uma improvisação ensandecida. Mortier nos passa toda a inversão de valores desses indivíduos através de elementos claros, como boa parte do inicio (ótimo início, aliás) que é feita ao contrário, de trás para frente, assim como a inversão de teto e chão no quarto de Koen, simbolizando a desordem do personagem. Muita sujeira, ligeiras cenas de sexo explícito, muita câmera lenta para enfatizar os momentos mais bizarros e engraçados. Está tudo ali, para ser digerido, ou não. Eu ainda estou digerindo.

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O roteiro aborda todas as obsessões de seu autor Brusselmans, como consumo de álcool, drogas, violência e muito Punk Rock (que no filme é de primeira). Toda a sujeira e ignorância realmente incomoda, pois é esse seu objetivo. A sinceridade em relação à realidade daqueles sujeitos é chocante, como quase tudo na vida.

Toda a violência com as mulheres é fortemente abordada pelo o personagem de Koen, talvez o mais deficiente de todos. Em sua casa, como já foi citado, tudo é do avesso, ele literalmente anda pelo teto. Sua compulsão por sexo é assustadora e em seu mundo ele questiona e tenta se justificar, achando uma explicação simples para sua perturbação: “A culpa é das vadias”.

A relação de Jan com seus pais é horrível. Seu pai, um veterano de guerra, é mantido amarrado o dia todo na cama com uma camisa de força, e enquanto o limpa, o baixista insiste em lembrá-lo de como ele é um perdedor por estar ali confinado, e também explica tudo que anda fazendo com seus parceiros sexuais. Já a mãe de Jan é surreal. Careca devido ao bizarro acontecimento na infância do filho, ela se envolve com diversos homens, inclusive o vocalista Koen.

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O guitarrista Ivan, com sua mulher e filha, é um verdadeiro troglodita. A cena em que vemos a menina assistindo a uma discussão do casal perturba e pode causar certa perplexidade nos mais puritanos.

Analisando friamente, Ex Drummer explora a miséria humana sem ser hipócrita. Em algumas ocasiões parece que rir é proibido, mas o humor está ali, negro, satirizando algo que está distante da maioria, uma classe baixa que se debate e se atraca em meio a imundice, em meio as drogas e o sexo descabido. Só que uma coisa é interessante nesses personagens: todos são muitos sinceros, principalmente Dries, que não esconde em momento algum seu interesse em viver aquilo apenas por beneficio próprio, tratando a todos muitíssimo mal. Ele só não fala abertamente porque ninguém pergunta.

O filme tenta mostrar que, enquanto esses lunáticos estão ali se engalfinhando na lama, a classe alta, representada por Dries, os manipula e usa deles como bem entende. É de interesse do personagem mantê-los onde estão, pois ali eles são a atração. Se eles não existissem, o que seria da classe média, ou alta. É preciso que tudo esteja errado! Tudo tem de estar na contra mão. No final não é preciso escolher um lado. Os últimos 30 minutos de filmes são alucinantes e dignos de serem lembrados, e pensando bem, um filme como esse dificilmente é esquecido e esse é um de seus maiores méritos, tendo o público gostado ou não!

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